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A Odisseia do Cruzeiro de Porto Alegre

O Cruzeiro completava 40 anos de aniversário de fundação no ano de 1953, e se mantinha entre os grandes clubes de futebol de Porto Alegre e do estado do Rio Grande do Sul. Para além deste significativo acontecimento, o clube realizaria neste ano o seu maior feito. O Cruzeiro decidiu pela realização de uma viagem para a Europa e Ásia, sendo a idéia patrocinada pelo empresário José Gama, que já havia realizado excursões desse tipo com outro clube brasileiro, o Náutico do Recife. Os jogos seriam realizados em dois continentes – Europa e Ásia –, passando por Itália, França, Espanha, Suíça, Turquia e Israel. Com isso, o Cruzeiro seria o primeiro clube sul-rio-grandense a viajar para a Europa e também o primeiro time de futebol brasileiro a jogar na Ásia.

O Cruzeiro, visando se preparar para a viagem e sabendo que enfrentaria grandes desafios com os times locais, foi em busca de reforços. Mas, outubro, o mês para qual estava marcada a viagem, oferecia muitas dificuldades à contratação de jogadores. Sendo assim, manteve-se a base do time, que já contava com bons jogadores.

No domingo, dia 4 de outubro 1953, o time jogou e perdeu para o Renner de Porto Alegre na disputa do campeonato sul-rio-grandense, o que eximiu suas chances no torneio. Devido a este resultado o Cruzeiro decidiu focalizar somente na excursão. Todavia, na rodada seguinte do campeonato no dia 11 de outubro, venceu o Grêmio por dois a um, em um jogo decisivo para o Grêmio que ainda estava na disputa pelo título. A conquista deste resultado surpreendente contribuiu para melhorar o entusiasmo dos jogadores, que receberam um “bicho’’(pagamento extra) de 100 cruzeiros pela vitória.

A participação do Cruzeiro estava encerrada, pois a data da excursão estava próxima. No dia 21 de outubro, às vésperas da viagem, o Cruzeiro apresentou despedidas aos jornais da cidade e emissoras de televisão, além de homenagear também o prefeito de Porto Alegre Ildo Meneghetti. Ficou decidido que o clube viajaria em duas turmas para o Rio de Janeiro, local de onde partiria o transatlântico, devido a dificuldade de transporte. O jogador Huguinho falou à imprensa sobre a importância da viagem, manifestou confiança no clube e disse que ele e os jogadores fariam de tudo para honrar o nome do Cruzeiro, apesar de considerar aquele um desafio bastante árduo.

​A excursão do Cruzeiro começou no dia 22 de outubro de 1953, partindo de Porto Alegre com uma delegação composta de aproximadamente 35 pessoas, entre os quais estavam dirigentes, jogadores e algumas esposas. A delegação chegou ao Rio de Janeiro no dia 23 de outubro, sexta-feira, e foi hospedada no estádio São Januário do Vasco da Gama. O Cruzeiro permaneceu no Rio de Janeiro até o dia 25 de outubro, quando embarcou para a Europa no transatlântico Giulio Cesare com destino à Espanha, realizando antes estadia em Dacar, no Senegal. O grupo passaria o natal em Istambul e o ano novo em Alger. Depois a delegação seguiria viagem para iniciar a série de jogos amistosos pela Europa, começando pela Espanha.

Na Espanha estava previsto que o Cruzeiro enfrentaria o Deportivo Espanhol, clube da região da Catalunha, no dia 8 de novembro, porém chegando no país, a delegação foi recebida com uma péssima notícia: não haveria jogos em Barcelona. O jogo marcado com o Deportivo Espanhol tinha sido cancelado, o que causou indignação da delegação, que estimava gastos de aproximadamente 120.000 cruzeiros. O principal alvo de críticas foi o empresário José Gama, acusado de ter espírito aventureiro, e, pelo que constava nas informações, já havia cometido a mesma falha com o time do Náutico quando realizou semelhante excursão.

​Diante do imprevisto, a direção do Cruzeiro resolveu assumir as rédeas da situação e revelou que o próximo compromisso seria o jogo contra o Real Madrid, grande time europeu, no dia 8 de novembro de 1953. As manchetes do jornal Correio do Povo anunciavam: “Drapejará hoje num estádio europeu, pela primeira vez a bandeira de um clube de futebol do RS, a estrelada do Esporte Clube Cruzeiro”. O time do Real Madrid estava desfalcado para o jogo, pois alguns atletas estavam na seleção espanhola. Mesmo assim, contava com grandes astros do futebol europeu, entre eles, Di Stéfano e Olsen.

O Cruzeiro treinou no estádio Chamartin às vésperas do jogo. No dia 10 de novembro de 1953, o jornal Correio do Povo saudava o Cruzeiro pelo empate conquistado diante do Real Madrid por 0 a 0. O Real Madrid teve um desempenho tecnicamente melhor no jogo, o que já era esperado, pela qualidade de seus jogadores. Mais cansado, por ocasião da viagem, o Cruzeiro encontrou dificuldades com o gramado local, o qual os jogadores do Real Madrid já estavam mais acostumados. Porém, o Cruzeiro se defendeu muito bem e obteve o empate, que foi muito comemorado pela boa atuação do sistema defensivo, destacando-se a atuação do goleiro La Paz do Cruzeiro, e ao final das contas por se tratar de uma equipe do porte do Real Madrid. O estádio contava com metade do público total, devido ao jogo da seleção espanhola, que dividiu a atenção do público.

O próximo compromisso seria contra o time do Toulouse, na França. O Toulouse era o terceiro colocado no campeonato francês e o Cruzeiro entraria em campo com os mesmos jogadores do jogo contra o Real Madrid. Apesar das boas atuações dos jogadores Laerte e Casquinha, o Cruzeiro perdeu por dois a zero para o time francês. Num lance acidental, Valtão acabou se chocando com o adversário e machucando o nariz, fato que pode ter prejudicado a atuação do time. Após o mal resultado na França, o objetivo do Cruzeiro era buscar um saldo melhor na Itália, contra o Torino, recuperando-se da derrota.

No jogo contra o Torino, a disputa acabou empatada em zero a zero. Porém, o Cruzeiro jogou melhor e chegou a colocar a bola na trave por quatro vezes. A atuação foi destacada como sendo a melhor até aquele momento da excursão. O estádio estava lotado e o bom desempenho do time arrancou aplausos da torcida adversária ao final do jogo.

No dia 18 de novembro, foi noticiado que o Cruzeiro disputaria alguns jogos na Suíça, dependendo apenas de um acerto com o empresário José Gama. A notícia se confirmou e o Cruzeiro realizou seu quarto desafio na Europa, goleando o Laussane, terceiro colocado do campeonato suíço, por cinco a dois. O jogador Nardo fez dois gols, Ferraz, Huguinho e Hoffmeister também marcaram. O bom público que compareceu aprovou o espetáculo realizado e a embaixada brasileira na Suíça enalteceu a atuação do clube no jogo.

Ainda faltava o jogo do Cruzeiro na Itália contra o time da Lazio previsto para o mês de dezembro. O jogo contra o Lazio da Itália era o último compromisso na Europa. Nesse mesmo período, uma notícia triste surpreendeu a todos. Vítima de um ataque cardíaco, o esportista Rivadavia Prates, membro da delegação, faleceu. Este acontecimento repentino causou um forte abalo no grupo, que se não tivesse assumido compromisso de jogos regressaria de imediato. O corpo do esportista foi encaminhado de avião para Porto Alegre, onde seria sepultado, por iniciativa do ministro brasileiro da época, João Goulart.

O jogo com o Lazio acabou empatado em zero a zero e assim, totalizava-se o terceiro empate do Cruzeiro na excursão. A Lazio era vista como uma das melhores equipes da Itália na época e o jogo foi assistido por cerca de 15.000 espectadores, num dia. Segundo o jornal, o Cruzeiro atuou melhor nesse jogo, perdendo alguns gols e tendo um gol do jogador Ferraz anulado.

A atuação na Itália teve ótima repercussão, inclusive entre jornais italianos, que teceram elogios ao empate, e enfatizaram as defesas do goleiro La Paz e das performances individuais dos jogadores Laerte e Casquinha. Além disso, afirmaram que o Cruzeiro era um dos melhores times sul-americanos que já haviam jogado na Itália. Após os bons resultados obtidos em sua passagem pela Europa, o Cruzeiro viajaria para Turquia e Israel, realizando a inédita excursão pela Ásia.

​No dia 5 de dezembro, o Cruzeiro embarcava de avião para Tel-Aviv, capital de Israel, onde realizaria três apresentações no mês de dezembro, nos dias 9, 16 e 19. No dia 6 a delegação desembarcou e já no dia 8 realizou seu primeiro treino nas terras desconhecidas. O treino foi realizado no estádio de Ramatgan, onde também seria realizado o principal jogo no país, contra o campeão nacional Maccabi Haifa. Os jogadores do Cruzeiro foram elogiados pelo treinador da seleção de Israel, principalmente pela sua habilidade técnica.

O Cruzeiro de Porto Alegre era o primeiro time brasileiro a jogar em Israel, e as manchetes estampavam tal feito. O jogo era aguardado com expectativa por ambas as partes e se configurou como um grande espetáculo diante de um público estimado em 25.000 pessoas. O Cruzeiro derrotou o Maccabi Haifa, campeão da Liga Israelense por dois a um, no estádio olímpico de Ramatgan. O jogador Huguinho foi o destaque, marcando dois gols na partida que foi muito disputada.

O próximo confronto do Cruzeiro seria contra o Petak, uma equipe considerada mais fraca que o Maccabi Haifa. No entanto, o jogo contra o Petak acabou empatado em zero a zero, o que de certa maneira surpreendeu a todos, tendo em vista que não se esperava muita reação do adversário. Após este jogo circulavam notícias de que o Cruzeiro enfrentaria a seleção de Israel, que disputava as eliminatórias para a copa do mundo.

O jogo não ocorreu, mas o Cruzeiro jogou contra o time que liderava o campeonato local, o Hapoel, e saiu-se muito bem, derrotando o clube do país pelo resultado expressivo de cinco a zero. Após a vitória, no mesmo dia o time embarcou à noite para a Turquia, despedindo-se de Israel. A atuação em Israel foi considerada muito satisfatória, pois o Cruzeiro não sofreu derrotas.

Em Istambul, na Turquia, o compromisso do Cruzeiro era a realização de quatro partidas na capital, nos dias 15, 20, 26 e 27 de dezembro. O primeiro jogo seria contra o líder do campeonato, Besiktas. Com gols de Huguinho e Rudimar, este jogo terminou empatado em dois a dois, com uma boa exibição do Cruzeiro. O próximo desafio seria contra o Fenerbahçe, já no dia seguinte. Talvez pela falta de tempo para a recuperação dos atletas de uma partida para outra, além do frio intenso, o Cruzeiro acabou derrotado nesta partida. Não jogou bem, parecendo realmente um time cansado.

Em mais uma partida na Turquia, o Cruzeiro sofreu nova derrota, desta vez por cinco a dois, para o Fenerbahçe. O time do Cruzeiro encerraria sua participação na Turquia com uma vitória, contra o time mais popular do país, o Galatasaray. A vitória foi construída com dois gols de Huguinho e um de Ferraz, o gol da vitória. Um fato curioso marcou a partida. O time do Cruzeiro abandonou o gramado aos 33 minutos do segundo tempo por conta de possíveis erros da arbitragem, entre eles, a expulsão de um jogador do Cruzeiro. Da Turquia o Cruzeiro seguiria para a Espanha, onde realizaria seus últimos jogos, antes do retorno ao Brasil.

Os últimos jogos do Cruzeiro antes do retorno ao Brasil foram realizados na Espanha, local do começo da excursão. O primeiro dos jogos, que teve como adversário o Espanhol de Barcelona, foi vencido pelo Cruzeiro por quatro a dois, com dois gols de Huguinho, três de Laerte e um de Jarico. De acordo com o jornal quase 25 mil pessoas assistiram ao espetáculo.

Dias após a vitória do Cruzeiro sobre o Espanhol, surge a notícia de que o treinador do time catalão, maestro Scopelli, havia “rasgado’’ elogios ao time brasileiro. Scopelli foi um grande jogador argentino, que fez história no Independiente, clube da Argentina, e mais tarde tornou-se ídolo no futebol francês. Na época, cronista e treinador, Scopelli definiu o Cruzeiro como uma equipe de magnífica movimentação e ótimo futebol, merecedora da vitória sobre o seu time. Além disso, afirmou ser uma das equipes mais leais para jogar que já havia visto. Lembrou ainda da importância desse tipo de contato, entre times sul-americanos e europeus, declarando que se não ocorressem mais seria um desperdício de bons espetáculos para europeus e brasileiros, que necessitam desse tipo de enfrentamento para o amadurecimento de suas associações de futebol.

​O jogo de despedida do Cruzeiro nos gramados europeus foi uma revanche pedida pelo Espanhol. Apesar da tentativa do time catalão de vingar a última derrota, o Cruzeiro venceu novamente por dois a um com gols de Huguinho e Ferraz. Consta que 22 mil pessoas assistiram ao jogo de despedida do cruzeiro da Europa.

​Após uma trajetória longa e cansativa na Europa e Ásia, com mais sucessos que insucessos, o Cruzeiro de Porto Alegre iniciava sua viagem de volta para o Brasil, com seis vitórias, cinco empates e três derrotas na bagagem. Quando o time viajou, em outubro, muitos consideraram a iniciativa arriscada e até mesmo um desatino dos dirigentes. Contudo, o Cruzeiro insistiu e foi em frente. Contou com algumas surpresas ruins como o jogo que não ocorreu, em Barcelona, acarretando prejuízo para a delegação, e o falecimento do membro da delegação Rivadavia Prates durante a excursão. Mas também foram diversos momentos de sucesso. O fracasso contra o Tolousse da França foi amenizado pelo empate na Itália contra o Torino e seguidas vitórias. Portanto, o Cruzeiro foi além das expectativas com a excursão, aumentou a glórias dos brasileiros no exterior e abriu caminhos para o futebol regional em centros de importância mundial.



Fonte:

Agradeçemos a Lucas Lopez da Cruz, Bruno Scalzilli Vieira Marques e Janice Zarpellon Mazo, em matéria ao site www.efdeportes.com, pelo grande trabalho de levantamento de dados históricos e documentação deste acontecimento de grande importância para futebol brasileiro. Para mais informações: 

http://www.efdeportes.com/efd156/1950-esporte-clube-cruzeiro-percorre-a-europa-e-asia.htm